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'Vootarot' no Auditório da Quinta da Caverneira
Uma gaiola parte à procura de um pássaro.
Num cais que também pode ser estação, varanda, praça ou campo de batalha, uma figura — ou um coro — tenta nomear aquilo que escapa: o amor que não se segura, a infância que termina, a mãe que se ausenta, a paz que já não chega. Ao redor, as aves surgem como mensageiros do que está vivo: aproximam-se, migram, caem, voltam — e, às vezes, são caladas, feridas, engaioladas.
A peça constrói-se como uma liturgia de despedida, onde cada animal alado é um espelho humano: a andorinha, que conhece o caminho do regresso e, ainda assim, treme quando o céu muda; o beija-flor, pequeno excesso de vida, batendo as asas como se pudesse suspender o tempo; O shima-enaga, criatura híbrida, impossível de catalogar, trazendo à boca o presságio de que a imaginação também é uma forma de verdade; o rouxinol, que insiste em cantar mesmo quando cantar custa; o corvo, que não promete consolo, mas vigia o que foi deixado para trás; o mocho-galego, sentinela da noite, perguntando o que vemos quando já não há luz; o pinguim, caminhante do frio, aprendendo a amar sem voo; o morcego, que atravessa a escuridão por escuta, como quem procura o mundo com outra linguagem; e a gaivota, entre o lixo e o mar, lembrando que a sobrevivência também tem canto. Entre poemas e canções, o palco vira um território de passagem: um comboio de chuva e guerra, um “cemitério marchando noite dentro”, e também a infância como floresta perdida — “não iremos mais à floresta”. No centro, uma pergunta simples e brutal organiza o mosaico: o que acontece com uma humanidade que troca o canto por notificações, o céu por telas, o vivo por metal? A cada tentativa de aprisionar o indizível, algo se parte: asas, garras, voz, confiança.
Mas ainda assim insistimos numa resistência delicada — quase teimosa: mesmo sem céu, ainda é possível cantar por amor e não por programação. No final, a despedida não é só perda: é rito de passagem. E quem sabe, possamos sair com a sensação de ter escutado, por instantes, o pássaro que “nunca ninguém viu, mas todos já sonharam”.
Sexta e Sábado | 21h30
Domingo | 16h00
Entrada gratuita até à lotação da sala
Informações | 917 691 753 | 918 410 003
Ficha Artística e Técnica
Texto | Zeferino Mota
Intérpretes | Ana Costa | Betina Kavinsky | Bruno Maia | Francisca Picarote | Luis Sousa | Maty Bang | Mi Célio | Patricia Monteiro |Teresa Lopez
Iluminação | André Rabaça
Cenografia | José Lopes
Direção | Miguel Hernandez