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Moinhos, uma revolução discreta
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Desde o século III a.C. que se conhecem dispositivos hidráulicos sofisticados, que incluíam rodas com vasilhas para elevar água, como os descritos por Filo de Bizâncio. No século I a.C., os moinhos hidráulicos já eram utilizados em Roma, e Antípatro de Tessalónica celebrou poeticamente essa inovação, destacando seu papel na substituição do trabalho manual feminino.
«Deixai de moer, ó mulheres que trabalhais no moinho; dormi até tarde mesmo que os galos, cantando, vos anunciem a alvorada. Pois Deméter ordenou às ninfas que façam o trabalho das vossas mãos, e elas, descendo pela roda, fazem girar o eixo que, com os seus raios giratórios, faz rodar as pesadas mós côncavas de Nysar. Gozemos novamente as alegrias da vida primitiva, aprendendo a festejar com os produtos de Deméter, sem canseiras.»
Embora a roda horizontal fosse mais simples e amplamente usada, a roda vertical, mais eficiente, também já era conhecida, pois ela foi descrita por Vitrúvio no seu tratado de arquitetura. Ao contrário de outras estruturas romanas que caíram em desuso, os moinhos hidráulicos continuaram a ser utilizados, sendo mencionados em leis irlandesas do século V. Inicialmente usados para moer cereais, no século IV já serviam para serrar madeira. Após o colapso do Império Romano, seu número diminuiu, mas voltaram a ser amplamente utilizados a partir do século X, graças às ordens monásticas. E no século XIV eles já eram comuns em centros industriais europeus.
Além de moer cereais e bombear água, os moinhos hidráulicos passaram a fornecer energia para diversas atividades industriais: produção de papel, corte e forja de metais, serração de madeira, tratamento de peles, fiação de seda e fabricação de armas. Em 1400, Rudolfo de Nuremberga criou uma máquina de trefilar (converter metais em fio) movida por energia hidráulica. Georg Bauer, no século XV, destacou sua utilidade na mineração, sugerindo seu uso subterrâneo para substituir o trabalho humano e animal. A energia hidráulica foi essencial para o avanço da siderurgia, permitindo maior produção de ferro por meio de foles mais potentes e fornos maiores.
Embora essas operações fossem pequenas em escala comparadas às modernas, elas eram adequadas à sociedade da época. A difusão da energia hidráulica contribuiu para uma distribuição mais equilibrada da população e da atividade económica entre campo e cidade. O crescimento urbano excessivo só ocorreu com a concentração financeira e política nos séculos XVI e XVII.
Na Maia, os moinhos ainda em pé são mais tardios (século XVIII, e XIX) e eram utilizados sobretudo para a tarefa de moagem, aproveitando a riqueza hídrica do concelho.
Foto: Moinhos do Arco, Milheirós.